sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Numa cidade qualquer do interior, a academia era uma das poucas opções de lazer. Márcia praticava suas atividades físicas com frequência, cuja beleza “roubava” os sedentos olhares. Ela era esposa do juiz e tinha um comportamento sereno e sisudo; aparentemente, não se envaidecia com os olhares alheios.

Diante da ausência de lazer, a ida à academia era um momento de cuidar da saúde física e de tecer também laços sociais. Recentemente, Davi passou a compor o seu quadro de funcionários; tal oportunidade de emprego soou como um meio para complementar a renda familiar do jovem. Davi vivia com sua esposa e sua filha recém-nascida, e confessava para os amigos: “Preciso trabalhar muito para dar uma boa condição de vida para a minha filha”.

Davi tinha acabado de completar 19 anos, cursou o Ensino Médio de forma atropelada e, desde cedo, mostrou apreço pelo trabalho. Ele gostava de enfatizar que queria ganhar o seu próprio dinheiro para não gerar incômodo nos pais. Com a gravidez inesperada da namorada, Davi foi obrigado pelas circunstâncias a construir seu próprio lar. Trabalhava no supermercado como empacotador e, nas horas vagas, labutava na academia na função de recepcionista.

A experiência expressiva no âmbito comercial, concedeu a Davi o traquejo para lidar com o público. Na academia, elogiava-se a sua dedicação e a maneira cortês de tratar todos os clientes. O jovem guerreiro estava feliz, afinal, vinha conseguindo conciliar os dois empregos, o que possibilitava uma renda que garantiria o sustento familiar...

– Boa noite, Davi!

– Boa noite, Dona Márcia.

– Eu desejaria efetuar o pagamento da mensalidade.

– Pois não. Pix ou cartão?

– Pix.

– Aqui está a chave.

– Processando o pagamento. Pronto!

– Muito obrigado!

– Por nada, Davi! Bom trabalho!

– Obrigado! Bom treino para a senhora.

Paulatinamente, Davi se adaptou bem à nova rotina de trabalho. Pagava as contas com pontualidade e o dinheiro que sobrava era aplicado num fundo de previdência privada. A vida conjugal estava harmônica e a pequena Rute crescia com toda a saúde. Falava ao seu mundo interior: “Meu Deus, obrigado pelas bênçãos”. Apesar da distância dos templos religiosos, Davi se sentia bem no âmbito espiritual; sabia que a fé em Deus iria sustentá-lo nos momentos de adversidade...

– Boa noite, Davi!

– Boa noite, Dona Márcia.

– Você trabalha naquele supermercado localizado na rua Nelson Rodrigues?

– Trabalho sim.

– Certa vez, passando de carro, eu te vi lá.

– Entendi – responde Davi meio desconcertado.

– Pelo visto, você é um jovem muito trabalhador.

– Sou sim.

– Parabéns! Continue assim.

Após o brevíssimo diálogo, o jovem pensou: “Fiquei sem graça com a fala de Dona Márcia. Normal! Qualquer garoto como eu ficaria”.

Os dias se passaram e Márcia não perdia a oportunidade de dialogar com Davi. Cada vez mais, esta condição foi gerando uma série de reflexões: “Ela sempre fala comigo e mostra uma certa alegria. Às vezes, na saída, me cumprimenta e eu sinto um aperto de mão mais carinhoso. Sei lá. Talvez seja coisa da minha cabeça. Não nego que fico desconcertado perto dela, afinal, é uma mulher muito bonita, além de ser esposa do juiz...”.

Para aumentar o desconforto do jovem, algumas vezes, Márcia era a última a sair da academia. Quando estavam a sós, Davi era dominado pelo nervosismo...

– Davi, pode ficar tranquilo. Parece que quando me aproximo, você não se sente à vontade.

– Não é isso, Dona Márcia. Sou assim mesmo – o jovem responde sem a mínima confiança.

– A academia já vai fechar. Qualquer coisa, eu te dou uma carona.

– Obrigado, Dona Márcia. Minha casa fica pertinho daqui. Não precisa se incomodar.

– Não é incômodo, Davi. Ah! Não precisa me chamar de dona.

– Está bem.

– Você acha que sou uma mulher velha?

– De jeito nenhum. Muito pelo contrário!

Subsequente ao diálogo anterior, Davi começou a observar Márcia nas sessões de exercícios na academia. O seu instinto masculino era sugado pela beldade. A imagem de Márcia passou a povoar os pensamentos de Davi. Tal circunstância não tirava o seu sono nem o encaminhava para um conflito ético. Enquanto pai e esposo, ele era bem convicto de suas responsabilidades, em contrapartida, sabia do impacto de Márcia no seu inconsciente...

– Hoje, estou só em casa! Eu me sinto tão sozinha.

– Hum.

– Uma visita me faria bem.

– Qual tipo de visita?

– Você já sabe a resposta, Davi!

– Creio que não.

– Percebi que você está mais à vontade comigo.

– É verdade!

– Não sou uma fera – Márcia ri.

– Claro que não! – risos.

– O que você acha do meu corpo?

– Prefiro não comentar.

– Por quê?

– Não posso falar a verdade.

– Imagine o meu corpo nu.

– Aqui na academia, quem não imaginou?!

– Às vezes, o ser humano necessita de uma aventura.

– Mas, qualquer aventura tem risco. O preço pode ser muito alto.

– É fato! Porém, a vida é passageira; normalmente, a experiência proporcionada por uma aventura fica marcada na memória. É o sabor da vida!

– Você está certa!

– Não percamos esta oportunidade. Pode ser a única.

Longuíssimos segundos fluíram. Davi ficou extremamente pensativo. Não tinha força ou coragem para prosseguir a conversa, porém a sua imaginação fervilhava. O corpo do garoto ardia de desejo, sensação que era combatida pela razão...

– Nossa! Começou a chover. Rua deserta.

– Chuva muito forte – complementa Davi.

– Então! Hoje, você vai aceitar a minha carona? De antemão, saiba que sou uma mulher discreta e determinada...

Ilustríssimo Leitor, felizmente ou infelizmente, este que vos escreve, não prosseguirá o diálogo acima. Por conseguinte, cabe a você fazer uma reflexão e decidir se Davi aceitará a carona de Márcia. O final desta singela crônica pertence tão somente a você.

 

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