Numa cidade qualquer
do interior, a academia era uma das poucas opções de lazer. Márcia praticava
suas atividades físicas com frequência, cuja beleza “roubava” os sedentos
olhares. Ela era esposa do juiz e tinha um comportamento sereno e sisudo; aparentemente,
não se envaidecia com os olhares alheios.
Diante da ausência
de lazer, a ida à academia era um momento de cuidar da saúde física e de tecer
também laços sociais. Recentemente, Davi passou a compor o seu quadro de
funcionários; tal oportunidade de emprego soou como um meio para complementar a
renda familiar do jovem. Davi vivia com sua esposa e sua filha recém-nascida, e
confessava para os amigos: “Preciso trabalhar muito para dar uma boa condição
de vida para a minha filha”.
Davi tinha acabado
de completar 19 anos, cursou o Ensino Médio de forma atropelada e, desde cedo,
mostrou apreço pelo trabalho. Ele gostava de enfatizar que queria ganhar o seu
próprio dinheiro para não gerar incômodo nos pais. Com a gravidez inesperada da
namorada, Davi foi obrigado pelas circunstâncias a construir seu próprio lar. Trabalhava
no supermercado como empacotador e, nas horas vagas, labutava na academia na
função de recepcionista.
A experiência
expressiva no âmbito comercial, concedeu a Davi o traquejo para lidar com o
público. Na academia, elogiava-se a sua dedicação e a maneira cortês de tratar
todos os clientes. O jovem guerreiro estava feliz, afinal, vinha conseguindo
conciliar os dois empregos, o que possibilitava uma renda que garantiria o
sustento familiar...
– Boa noite, Davi!
– Boa noite, Dona
Márcia.
– Eu desejaria
efetuar o pagamento da mensalidade.
– Pois não. Pix ou
cartão?
– Pix.
– Aqui está a
chave.
– Processando o
pagamento. Pronto!
– Muito obrigado!
– Por nada, Davi! Bom
trabalho!
– Obrigado! Bom
treino para a senhora.
Paulatinamente, Davi
se adaptou bem à nova rotina de trabalho. Pagava as contas com pontualidade e o
dinheiro que sobrava era aplicado num fundo de previdência privada. A vida
conjugal estava harmônica e a pequena Rute crescia com toda a saúde. Falava ao
seu mundo interior: “Meu Deus, obrigado pelas bênçãos”. Apesar da
distância dos templos religiosos, Davi se sentia bem no âmbito espiritual; sabia
que a fé em Deus iria sustentá-lo nos momentos de adversidade...
– Boa noite, Davi!
– Boa noite, Dona Márcia.
– Você trabalha
naquele supermercado localizado na rua Nelson Rodrigues?
– Trabalho sim.
– Certa vez, passando
de carro, eu te vi lá.
– Entendi –
responde Davi meio desconcertado.
– Pelo visto, você
é um jovem muito trabalhador.
– Sou sim.
– Parabéns! Continue
assim.
Após o brevíssimo
diálogo, o jovem pensou: “Fiquei sem graça com a fala de Dona Márcia.
Normal! Qualquer garoto como eu ficaria”.
Os dias se passaram
e Márcia não perdia a oportunidade de dialogar com Davi. Cada vez mais, esta
condição foi gerando uma série de reflexões: “Ela sempre fala comigo e mostra
uma certa alegria. Às vezes, na saída, me cumprimenta e eu sinto um aperto de
mão mais carinhoso. Sei lá. Talvez seja coisa da minha cabeça. Não nego que
fico desconcertado perto dela, afinal, é uma mulher muito bonita, além de ser
esposa do juiz...”.
Para aumentar o
desconforto do jovem, algumas vezes, Márcia era a última a sair da academia. Quando
estavam a sós, Davi era dominado pelo nervosismo...
– Davi, pode ficar
tranquilo. Parece que quando me aproximo, você não se sente à vontade.
– Não é isso, Dona
Márcia. Sou assim mesmo – o jovem responde sem a mínima confiança.
– A academia já
vai fechar. Qualquer coisa, eu te dou uma carona.
– Obrigado, Dona
Márcia. Minha casa fica pertinho daqui. Não precisa se incomodar.
– Não é incômodo,
Davi. Ah! Não precisa me chamar de dona.
– Está bem.
– Você acha que
sou uma mulher velha?
– De jeito nenhum.
Muito pelo contrário!
Subsequente ao
diálogo anterior, Davi começou a observar Márcia nas sessões de exercícios na
academia. O seu instinto masculino era sugado pela beldade. A imagem de Márcia
passou a povoar os pensamentos de Davi. Tal circunstância não tirava o seu sono
nem o encaminhava para um conflito ético. Enquanto pai e esposo, ele era bem
convicto de suas responsabilidades, em contrapartida, sabia do impacto de
Márcia no seu inconsciente...
– Hoje, estou só
em casa! Eu me sinto tão sozinha.
– Hum.
– Uma visita me
faria bem.
– Qual tipo de
visita?
– Você já sabe a
resposta, Davi!
– Creio que não.
– Percebi que você
está mais à vontade comigo.
– É verdade!
– Não sou uma fera
– Márcia ri.
– Claro que não! –
risos.
– O que você acha
do meu corpo?
– Prefiro não
comentar.
– Por quê?
– Não posso falar
a verdade.
– Imagine o meu
corpo nu.
– Aqui na academia,
quem não imaginou?!
– Às vezes, o ser
humano necessita de uma aventura.
– Mas, qualquer
aventura tem risco. O preço pode ser muito alto.
– É fato! Porém, a
vida é passageira; normalmente, a experiência proporcionada por uma aventura
fica marcada na memória. É o sabor da vida!
– Você está certa!
– Não percamos
esta oportunidade. Pode ser a única.
Longuíssimos
segundos fluíram. Davi ficou extremamente pensativo. Não tinha força ou coragem
para prosseguir a conversa, porém a sua imaginação fervilhava. O corpo do
garoto ardia de desejo, sensação que era combatida pela razão...
– Nossa! Começou a
chover. Rua deserta.
– Chuva muito
forte – complementa Davi.
– Então! Hoje, você
vai aceitar a minha carona? De antemão, saiba que sou uma mulher discreta e
determinada...
Ilustríssimo
Leitor, felizmente ou infelizmente, este que vos escreve, não prosseguirá o
diálogo acima. Por conseguinte, cabe a você fazer uma reflexão e decidir se
Davi aceitará a carona de Márcia. O final desta singela crônica pertence tão
somente a você.
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