Prezado Leitor, a
priori, alerto-te: no processo de escrita deste artigo ácido, não irei
limitar o texto às amarras do politicamente correto. O senso estético
grego, aquele entoado por Platão e Aristóteles, será o nosso norte filosófico.
Caso tu não concordes com o enunciado do alerta ou sejas um assecla do politicamente
correto, pare a leitura no próximo ponto. De antemão, o autor que vos
escreve não se vê como uma “mente iluminada” em meio à escuridão intelectual
que se arvora na sociedade, contudo, ele se posiciona de forma legítima como
uma testemunha ocular dos tempos hodiernos.
Na Grécia Antiga,
o conceito de beleza foi ratificado pelo grandioso Platão. O
principal discípulo de Sócrates afirmou que a beleza essencial não está no
mundo material, outrossim, encontra-se no mundo das ideias.
Aquilo que é belo tem em si a perfeição, logo, aquilo que é
perfeito não tem a contingência de mudar; se o belo vier a mudar,
deixa de ser perfeito. No pensamento platônico, a beleza é abstrata, assim, não
pode ser encontrada no plano físico; tal princípio contrasta com a percepção
contemporânea do senso comum, a qual, associa a beleza unicamente à aparência.
Simplesmente, se nós ficarmos manietados aos grilhões sensoriais, não veremos a
beleza essencial revelada pelo Sol.
O senso comum
relega o paradigma estético supracitado, confundindo a essência com a
aparência. O espírito da burrice move a massa, cegando completamente a
sua visão. Os antolhos da mediocridade impedem o olhar panorâmico que discerne
a beleza transcendental, inclusive no âmbito da arte. No ano corrente do
presente artigo, observa-se o império do relativismo, cuja ideologia
predominante iguala todas as manifestações artísticas por baixo: tudo é belo,
do lodaçal sonoro de Anitta ao terrível pagode da Bahia, da banana com fita
adesiva ao ponto preto na tela branca. E os relativistas de plantão ainda têm o
cinismo ou o mau-caratismo de colocar a “arte” em questão no mesmo nível de
Beethoven, Bach, Michelangelo e Caravaggio.
Voltemos à Era
Clássica e citamos uma icônica frase aristotélica: “Todo ser humano, por
natureza, deseja saber”. Não estou querendo ser anacrônico, mas se
Aristóteles vivesse nos dias de hoje, não sei se faria tal reflexão. Deixemos a
conjectura do “se” e regressemos ao mote deste parágrafo. Consoante o
Estagirita, o ser humano tem a tendência natural em buscar a sabedoria, isto é,
o alcance do conhecimento é inerente na essência humana. Esta análise
aristotélica está coadunada ao significado etimológico da palavra filosofia:
amor à sabedoria. De certa forma, em maior ou menor grau, o
indivíduo tem a necessidade de conhecer, fator que irá ampliar a sua
probabilidade de sobrevivência. Por questão de pragmatismo, o ser humano
persegue o conhecimento, em contrapartida, tal busca deveria abrigar também
anseios de ordem transcendental.
Enquanto espectador
do século XXI, atestamos que as argumentações empreendidas por Platão e
Aristóteles não ecoam no inconsciente coletivo, cuja maioria exacerbada
encara o conhecimento com indiferença. O espírito da burrice capturou o
coração de uma massa descontrolada que se preocupa tão somente com questões
imediatistas, materialistas e superficiais. Neste cenário, a música vem sendo
vilipendiada, graças ao péssimo gosto daqueles que aceitam o descarte de
toneladas de lixo sonoro nos seus tímpanos. Ademais, se qualquer manifestação
artística tiver o mínimo rebuscamento, gera ojeriza ou distanciamento da massa.
Aproveitando o ensejo, façamos um adendo: as linhas apresentadas neste
parágrafo têm a interferência direta da chamada Indústria Cultural,
a qual, transformou a arte numa mercadoria enveredada ao lucro. Ilustre Leitor,
permita-me uma observação: ao citar a Indústria Cultural, não
tenho a mínima intenção de isentar a massa do seu asco pela arte sublime e
essencial.
O quadro que está
posto nos persuade a ter um entendimento pessimista, pois não é possível discernir
no horizonte um fio de esperança. O avanço expressivo da tecnologia não teve e
não tem a devida força para afugentar ou mitigar o espírito da burrice. Por
sinal, nas redes sociais, os influenciadores digitais são exaltados por
inúmeros internautas como verdadeiras divindades, mas, tamanha exaltação não
leva em conta o princípio da virtude, muito pelo contrário, as bobagens
vomitadas pelos mesmos são extremamente valorizadas e servem até como fonte de
inspiração. Em recortes de programas televisivos que trazem quadros de
perguntas e respostas, é notável o desconhecimento destas subpersonalidades sobre
as questões mais simplórias, cuja plateia ensandecida aplaude passivamente um
genuíno show de horrores. O cenário está cada vez mais lastimável, percebendo-se
de forma irrefutável a consolidação do culto à burrice. Quem diria que a
burrice seria divinizada? Enfim, só nos resta questionar: onde iremos parar?
(Tosta Neto, 07/03/2026)
