O cantor Netinho morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, no Hospital Aliança Star, em Salvador, após enfrentar uma recidiva de um linfoma não Hodgkin do tipo B. O artista, que sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em 2013 e passou por anos de reabilitação, havia retomado os shows e lançado uma música inédita em 2025, depois de concluir um tratamento de quimioterapia contra o câncer, diagnosticado em fevereiro daquele ano.
Segundo a assessoria, nos últimos meses o linfoma evoluiu para um quadro de falência renal e disfunção múltipla de órgãos. Em 30 de setembro, a equipe do cantor havia informado que ele permanecia internado no Hospital Aliança Star, em Salvador, para tratar a recidiva da doença, após ter retomado as atividades artísticas no ano anterior.
O velório e a cremação ocorrerão de forma reservada, em cerimônia restrita a familiares e amigos próximos, por desejo expresso do próprio cantor. No comunicado que anunciou a morte, a assessoria informou que Netinho morreu tranquilo e divulgou uma frase que ele costumava repetir durante os últimos meses de tratamento: “partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”.
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Artistas se manifestam
A morte provocou manifestações de artistas, que destacaram a contribuição do cantor para o axé e os problemas de saúde que enfrentou ao longo dos últimos anos. Bell Marques lembrou a resistência do artista diante das sucessivas internações e dos tratamentos médicos: “sempre fui um grande admirador do seu talento, mas, ao longo dos últimos anos, minha admiração se tornou ainda maior diante da coragem, da determinação e da força com que enfrentou os desafios que a vida lhe impôs.
Carlinhos Brown destacou a participação de Netinho na história da música baiana e atribuiu a ele a criação de uma expressão associada aos trios elétricos. “Você, com sua alegria, fez tanta gente tirar o pé do chão, aliás esse jargão foi você que construiu”, afirmou o músico, que também lembrou a presença das canções do artista na memória do público.
Claudia Leitte publicou uma fotografia ao lado do cantor com a mensagem “Descanse em paz, meu irmão!”, enquanto Durval Lelys compartilhou uma imagem em preto e branco acompanhada da frase “VALEU, MEU REI!”. Luiz Caldas também prestou homenagem com a mensagem “Vá com Deus, Netinho!”, em uma publicação que utilizou como trilha sonora a música “Obrigado Meu Deus”, lançada pelo artista em novembro de 2025.
A Banda Beijo, responsável pela projeção nacional de Netinho no final dos anos 1980, publicou uma homenagem que ressaltou a importância do cantor para a história do grupo. “Netinho, é com esse brilho nos olhos, que sempre lembraremos de você. Nossa história não existiria sem a sua”, afirmou a banda em uma publicação nas redes sociais.
Filha presta homenagem
A filha do cantor, Bruna Trindade, também prestou homenagem ao pai nas redes sociais. Ela publicou uma fotografia antiga em preto e branco, na qual aparece ainda criança, no colo de Netinho, que segura um microfone próximo a ela, acompanhada da mensagem “Te amo pra sempre”.
O cantor Alexandre Pires também lamentou a morte do amigo e destacou a relação entre os dois. “Você lutou, meu amigo! Lutou com a coragem de quem ama a vida e com a grandeza de quem nasceu para deixar sua marca no mundo”, escreveu. O cantor e compositor Alexandre Peixe lembrou que teve músicas de sua autoria gravadas por Netinho e que chegou a dedicar um álbum ao repertório do artista, intitulado “Peixe Canta Netinho”.
O Carnatal, festa realizada em Natal, no Rio Grande do Norte, também publicou uma homenagem ao cantor, que participou da história do evento. “O Carnatal lamenta profundamente a partida de Netinho, um dos grandes nomes do axé e artista que marcou a história da nossa festa”, informou a organização.
Prefeito
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, também lamentou a morte e destacou a participação de Netinho na expansão da música baiana. “Netinho foi um dos grandes responsáveis por levar a alegria e a energia da Bahia para o Brasil e para o mundo, embalando gerações com canções que se tornaram eternas”, declarou.
Em nota, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) manifestou pesar e ressaltou a ligação do cantor com o Carnaval de Salvador e a circulação da música produzida no estado. Segundo a pasta, a presença de Netinho nos trios elétricos contribuiu para ampliar o alcance do axé em festas populares e circuitos musicais internacionais. Problemas de saúde e retorno aos palcos.
A primeira interrupção prolongada da carreira por problemas de saúde ocorreu em 2013, quando Netinho sofreu três AVCs e passou por três cirurgias cerebrais em um intervalo de sete dias. Segundo sua biografia oficial, o cantor perdeu os movimentos do corpo, a memória recente e a voz, permaneceu internado durante seis meses e deixou o hospital em cadeira de rodas, com 58 quilos.
No ano seguinte, mesmo debilitado, lançou o álbum “Beats, Baladas e Balanços – Manual para Baladas” e realizou uma apresentação de três horas no Rio de Janeiro. Ainda em 2014, enfrentou um quadro de depressão grave e precisou retornar ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde permaneceu internado por mais seis meses.
A partir de 2015, o cantor passou por tratamentos de reabilitação, com sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e terapias motoras e cognitivas. Em 2017, voltou a lançar uma composição inédita, “Somos Todos Um”, e retomou gradualmente os shows, inicialmente com uma apresentação por mês, conforme as orientações médicas.
Diagnóstico
Em 2023, depois do período de paralisação das apresentações durante a pandemia, Netinho lançou o espetáculo “Ressurreição”, que reuniu músicas de diferentes fases da carreira. O projeto ganhou uma nova versão em 2024, ano em que o cantor também apresentou um show em homenagem a Luiz Gonzaga e ao forró, inclusive em Santo Antônio de Jesus, sua cidade natal.
O diagnóstico de linfoma não Hodgkin do tipo B ocorreu em fevereiro de 2025, depois que Netinho sentiu dores nas costas e procurou atendimento médico em Salvador. Ele cancelou seis apresentações previstas para o Carnaval e iniciou a quimioterapia no Hospital Aliança Star, onde alternou períodos de internação com intervalos em casa.
Segundo a biografia oficial, um exame realizado após a quarta sessão de quimioterapia não identificou sinais de câncer, mas o cantor concluiu o tratamento por orientação médica. Durante os meses de internação, publicou vídeos nas redes sociais para informar aos seguidores sobre sua rotina e realizou atividades físicas com acompanhamento profissional.
Após o tratamento, Netinho voltou a ensaiar com sua banda em 17 de outubro de 2025 e realizou o primeiro show em 25 de outubro, em Coronel Fabriciano, Minas Gerais. Menos de duas semanas depois, em 7 de novembro, lançou a canção inédita “Obrigado Meu Deus”, que ganhou um videoclipe no dia 25 daquele mês.
“Escrevi essa letra para colocar a público um pedacinho da minha conversa constante com Deus. Gigi a musicou e disso saiu uma música lindíssima”, relatou o cantor em sua biografia oficial. A música foi escolhida pela assessoria para acompanhar a publicação que anunciou sua morte, nesta terça-feira.
Da Banda Beijo ao sucesso de “Milla”
Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, e mudou-se para Salvador aos 10 anos, após a morte do pai. Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão e aprendeu a tocar sozinho, antes de começar a se apresentar em bares da capital, com repertório de MPB e bossa nova.
O primeiro contato com o Carnaval ocorreu em 1986, quando acompanhou como folião o Bloco Beijo, então comandado por Luiz Caldas e pela Banda Acordes Verdes. No ano seguinte, ingressou na Banda Beijo e, em 1988, estreou no circuito oficial do Carnaval de Salvador e gravou o álbum “Prove Beijo”, que trouxe o sucesso nacional “Beijo na Boca”.
Em 1993, iniciou a carreira solo com o álbum “Um Beijo pra Você”, que reuniu canções como “Capricho dos Deuses”, “Total” e “Menina”. Três anos depois, lançou “Netinho ao Vivo!”, gravado em Aracaju, com a música “Milla”, um dos principais sucessos de sua carreira, que ajudou o disco a superar 3 milhões de cópias vendidas, segundo a biografia oficial.
Ecad
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) também lamentou a morte de Netinho e informou que o cantor possui 495 gravações cadastradas na gestão coletiva da música no Brasil. Segundo levantamento da instituição, “Milla”, composição de Tuca Fernandes e Manno Góes, lidera o ranking das músicas gravadas pelo artista mais executadas nos últimos cinco anos, seguida por “Menina”, “Bate Lata”, “O Fim de Semana” e “Peraê”.
A carreira também incluiu apresentações em países como Portugal, Itália e Estados Unidos, além de projetos com outros artistas da música brasileira. Em 2006, Netinho gravou o DVD “Netinho Por Inteiro”, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, com participações de Ivete Sangalo e do Ilê Aiyê, em um repertório que reuniu sucessos de diferentes períodos de sua trajetória.
*TRBN, por Livia Veiga