O Natal sempre
desperta esperança e boas-novas no coração dos cristãos. O nascimento do Filho de Deus é a renovação do vínculo
entre o Criador e a humanidade. Neste
artigo, faremos uma reflexão sobre o Natal, tendo como horizonte o Evangelho de Lucas. Na tradição cristã,
Lucas, o médico que acompanhou Paulo, é considerado o autor do terceiro
evangelho e do Atos dos Apóstolos.
Logo na parte inicial do texto, Lucas se propõe a narrar os fatos da vida de
Jesus, reconhecendo a importância da oralidade enquanto fonte histórica. Nas
entrelinhas, antes mesmo do nascimento, Cristo é apresentado como o caminho da
libertação e o começo de uma nova história. Lucas se mune de artifícios
historiográficos para contar o itinerário de Jesus Cristo, abrindo um novo
horizonte no enlace entre Deus e os seres humanos.
No tempo de
Herodes, rei da Judeia, vivia um importante sacerdote, Zacarias, esposo de
Isabel. Certo dia, ele recebera a visita do anjo Gabriel: “Mas o anjo disse: ‘Não tenha medo, Zacarias! Deus ouviu o seu pedido,
e a sua esposa Isabel vai ter um filho, e você lhe dará o nome de João’”
(Lc 1:13). Eis a revelação do nascimento de João Batista, que seria grande
perante o Senhor e abriria caminho ao advento do Messias. João é o baluarte dos
novos tempos, aquele que antecedeu o Cristo, batizando-o no rio Jordão.
Inegavelmente, as trajetórias de Jesus e João Batista estão interligadas desde
sempre, status revelado pelo evangelista nesta poética e simbólica passagem: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a
criança se agitou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”
(Lc 1:41). Por conseguinte, afirmamos com convicção que João Batista está
incluso na certidão de nascimento do cristianismo. Ademais, seu pai o exalta
como profeta do Altíssimo, aquele que
irá na frente para preparar-lhe o caminho e anunciar a salvação ao povo.
Assim como João
Batista, o nascimento de Jesus fora anunciado pelo anjo. Em Nazaré, Maria,
esposa de José, foi surpreendida pela aparição do ser angelical: “O anjo disse: ‘Não tenha medo, Maria,
porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que você vai ficar grávida,
terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus’” (Lc 1:30-31). Salientemos
também o elo entre Maria e Isabel, cujos filhos teriam os seus passos
conectados; a esposa de Zacarias exaltara a grandiosidade de Maria,
denominando-a bendita entre as mulheres pelo fato de carregar no seu ventre o
rebento de Deus. No desenrolar textual, Lucas associa Cristo à luz que
iluminará o povo e cunhará uma nova etapa na história da humanidade.
Obviamente, Jesus é imprescindível para angariar a paz, isto é, o alcance da
tão almejada plenitude do ser. O evangelista é categórico ao afirmar que o Filho do Pai é o pilar desta fase histórica,
isto é, o Cordeiro de Deus é a
própria personificação das boas-novas.
No contexto
histórico da concepção de Jesus, o imperador Otávio Augusto publicara um
decreto, ordenando o recenseamento em todo o Império Romano. Tal medida
objetivava potencializar a eficiência da arrecadação de impostos, onerando de
forma significativa os mais pobres. Neste ambiente de poder e opressão, Cristo
viria para libertar os pobres, questão que desagradaria os governantes e os
chefes religiosos da região. Claramente, o evangelista liga o Filho de Deus aos pobres e oprimidos.
Enfim, voltemos à temática do artigo. Prestemos atenção nas palavras do
evangelista: “Enquanto estavam em Belém,
se completaram os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito.
Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles
dentro da casa” (Lc 2:6-7). Doravante, a história do mundo ocidental não
seria mais a mesma.
Inestimável
Leitor, conforme a tradição judaica, Jesus passou pela circuncisão e fora
oferecido ao Senhor, porque todo primogênito pertencia a Deus. Em seguida,
Cristo foi resgatado pelos pais por intermédio de um sacrifício. Nesta
cerimônia, a mãe deveria ser purificada em troca de um cordeiro, mas quem era
pobre, oferecia um par de rolas ou dois pombinhos. Mais uma vez, Lucas sinaliza
que Jesus viera para os pobres. É válido enfatizar, como bem sugere este
parágrafo, que o Filho de Deus crescera
imerso no judaísmo. Apesar da força da tradição judaica, Jesus desafiou o status quo e expôs uma vertente religiosa
que negaria a pompa das riquezas, propondo uma fé centralizada no desprezo
material. Portanto, através das argumentações efetuadas por Lucas, inferimos
que Jesus Cristo é o pastor que libertará os pobres das agruras da existência.
Oportunamente, não
podemos olvidar: Lucas nomeia Cristo como um sinal de contradição, porquanto
suas pregações contrariaram as autoridades romanas e judaicas. Ouçamos o
evangelista: “Simeão os abençoou, e disse
a Maria, mãe do menino: ‘Eis que este menino vai ser causa de queda e elevação
de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição’” (Lc 2:34). Tal contradição
tem como ponto de partida o 25 de
Dezembro, fato que dividirá a história do Ocidente. O Natal é um ícone de
ruptura e aponta para uma religiosidade mais intimista que não ficará engessada
pelo dogmatismo mosaico dos doutores da
lei. Jesus Cristo veio ao mundo para emancipar a humanidade e
apresentar-lhe o caminho da salvação, logo, o Natal celebra a renovação da
esperança e o anúncio das boas-novas, princípios que devem estar pujantes no
âmago do indivíduo. O nascimento do Menino
Jesus é um evento tão abissal e nobre que até consegue atingir o coração
daqueles que não são cristãos. Independentemente do credo religioso, o Natal
nos concede expectativas em prol da consumação de uma vida melhor. Celebremos o
Natal!
(Tosta Neto, 25/12/2020)
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