Na Pérsia Antiga, quando Zaratustra pregou
o equilíbrio paradoxal entre Ormuz e Arimã, não imaginaria reflexos tão
consistentes no mundo ocidental. O maniqueísmo de Zaratustra produziu ecos no
judaísmo, no cristianismo e no islamismo. No desenrolar dos tempos, as pessoas
foram condicionadas religiosamente a pensar numa ótica bilateral. O dualismo se
enraizou nas entranhas da consciência, cuja sua profundidade tem se conservado
incólume. O ser humano foi manietado a raciocinar consoante as possibilidades
parcas da moeda; não há outro caminho além da cara e da coroa. O Ocidente foi
fundado por um tipo de filosofia da moeda,
condição que limitou o horizonte do pensamento.
A ordem bipolar na esfera da consciência mostrou-se
nociva para a plenitude do pensamento, promovendo quase sempre uma dualidade na
análise de fatos e ideias. O Ocidente que tanto se orgulha de ter na sua
certidão de nascimento o carimbo da racionalidade, não conseguiu quebrar os
grilhões do dualismo. Em alguns momentos, a própria filosofia caiu nesta prisão
ao opor ser vs ente, inteligível vs sensível, razão vs experiência, imobilismo vs mobilismo, ser vs nada, a priori vs a posteriori, essência
vs existência, etc.
O ditame da bipolaridade do pensamento foi
consumado pelas religiões que imperam no Ocidente: a peleja entre o “bem” e o
“mal” assumiu um movimento ininterrupto, tendo como resultado a vitória
esmagadora de “Deus” sobre o “diabo”. É indubitável que esta luta comove, pois,
os seres humanos têm uma simpatia natural pelo triunfo do “bem”. Até em finais
de novela e nos filmes, os telespectadores torcem com fervor que os vilões
sejam derrotados. Um vilão ao triunfar, ocasiona uma insatisfação geral.
Prezado leitor, francamente, acho admirável
a perspectiva do candomblé, graças a inexistência da separação drástica entre o
“bem” e o “mal”, em prol de uma mistura caótica e profícua entre estas forças
antagônicas. Porém, ao longo da história do Brasil, os orixás (deuses do candomblé)
foram satanizados pela Igreja Católica. É um enorme equívoco inserir o “diabo”
no panteão do candomblé, pois este personagem é típico do mundo
judaico-cristão; Lúcifer está deveras distante da teogonia dos orixás. As
divindades do candomblé são coloridas, dançam de forma faceira e percorrem as
trilhas do “bem” e do “mal”, assim como os seres humanos.
No Ocidente, é proibido pensar numa
perspectiva de multiplicidade, embora permita-se pensar de forma dualista: eu
não acredito em Deus, logo sou satanista; eu sou apolíneo, logo não sou
dionisíaco; eu não gosto do socialismo, logo sou capitalista; se eu não defendo
o proletariado, sou a favor dos anseios da burguesia; se eu critico o PT, sou
partidário do PSDB; se eu torço pelo Bahia, devo odiar o Vitória; se eu não me
identifico com Charles Xavier, tenho simpatia pelo Magneto; se eu não estou do
lado do “bem”, estou do lado do “mal”... Caro leitor, estas oposições são
entediantes, além de obnubilarem o exercício do pensar. Nós, Ocidentais,
asseclas da filosofia da moeda, desde
já, precisamos demolir os pilares do dualismo, possibilitando a construção do
perspectivismo múltiplo no pensamento.
Tosta Neto, 14/05/2015
Tosta Neto é Escritor e Historiador, Colunista do Outro Olhar Amargosa. |
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